O guia desligou o motor, apontou a lanterna para o breu e disse para a gente procurar dois pontinhos vermelhos na água. Achar olho de jacaré no escuro é mais fácil do que parece, e é isso que dá nome ao passeio.
Focagem de jacaré e pesca de piranha são as duas atividades que mais assustam quem nunca foi para a Amazônia, e as duas são bem mais tranquilas do que a imaginação sugere. Neste post eu conto como cada uma funciona, o que acontece com os animais depois, e corrijo uma informação errada que eu mesma ouvi de guia dentro da mata.
Eu conheci a região a convite da Iguana Tour, e os passeios que eu indico aqui você contrata por conta.
Focagem de jacaré: o que é e como funciona

A focagem acontece à noite, depois do jantar, em canoa ou barco pequeno. O guia varre a margem com uma lanterna e procura o reflexo dos olhos dos jacarés, que brilham na luz. Daí o nome: focar a luz para encontrar o animal.
Quando ele localiza um filhote e consegue, ele pega o bicho com a mão, traz para o barco e mostra para o grupo. Explica a espécie, conta as histórias, deixa quem quiser tocar, e depois devolve o animal para a água.
Foi tocando em um filhote que eu descobri uma coisa que não passa em documentário: o dorso é duro, quase blindado, e a barriga é macia. A diferença entre um lado e o outro é gritante.
Quem pega o jacaré é o guia, não você
Isso precisa ficar claro. O manuseio é feito por quem tem treinamento, com filhote, por poucos minutos, e o animal volta para o rio logo em seguida. Você não sai pescando jacaré no escuro.
A correção: quais jacarés existem mesmo na Amazônia
Na minha viagem, o guia disse ao grupo que o jacaré-paguá e o jacaré-de-papo-amarelo são do Mato Grosso do Sul e não existem na Amazônia. Eu fui checar depois, e essa informação está errada pela metade.
A Amazônia abriga quatro espécies de jacaré, e o paguá é uma delas:
- Jacaré-açu (Melanosuchus niger), o gigante da região e o maior réptil das Américas
- Jacaretinga (Caiman crocodilus), também chamado de jacaré-de-óculos
- Jacaré-paguá (Paleosuchus palpebrosus), um dos pequenos, em torno de 1,5 metro
- Jacaré-coroa (Paleosuchus trigonatus), o outro pequeno, também por volta de 1,5 metro
Paguá e coroa vivem mais no interior da mata, associados a igarapés e riachos pequenos, e por isso são menos vistos nos passeios do que o jacaretinga.
Quem realmente não é amazônico é o jacaré-de-papo-amarelo (Caiman latirostris), que ocorre em outras regiões do Brasil. O jacaré típico do Pantanal é outra espécie ainda, o Caiman yacare.
Guia de turismo não é biólogo, e informação solta assim se repete de grupo em grupo até virar verdade. Se você ouvir essa versão na sua viagem, agora você sabe.
Pesca de piranha: como é de verdade
Essa é das atividades mais divertidas do pacote, e também a mais frustrante, porque piranha rouba isca com uma competência impressionante.
O equipamento é simples: uma vara de bambu com linha e anzol, e pedaço de frango como isca. O guia ensina a técnica, que é bater a ponta da vara na água para chamar os peixes, esperar o puxão e levantar rápido.
Eu não peguei nenhuma. Uma menina do meu grupo pegou, e a gente devolveu o peixe para o rio depois de ver os dentes de perto. E olha, o dente é impressionante mesmo.
E se eu não pegar nada?
A maioria não pega. Isso não é problema, porque o passeio é sobre estar ali, no meio do rio, com o grupo rindo de si mesmo. Quem pega geralmente pega uma só.
Dá para nadar com piranha no rio?
Essa é a pergunta que todo mundo faz.
O banho de rio acontece nas áreas liberadas pelos guias, e a liberação muda conforme a época do ano. Na minha viagem de junho, com o rio cheio, dava para nadar na frente da pousada. Na de novembro, com o rio baixo, essa área estava interditada justamente por concentração de piranhas, e o banho passou a acontecer numa praia de areia a alguns minutos de barco.
Ou seja: o critério não é seu, é do guia, e ele muda de semana para semana. Respeite a orientação e nade só onde liberaram. Eu explico melhor essa diferença entre as épocas no post sobre a melhor época para ir à Amazônia.
Os dois passeios são obrigatórios?
Não. Ninguém é obrigado a segurar jacaré nem a pescar. Dá para ir no barco e só assistir, que é o que várias pessoas do meu grupo fizeram na focagem.
Para ver a estrutura da pousada onde esses passeios saem, leia como é se hospedar em um hotel de selva na Amazônia. O dia a dia completo está em roteiro de 3 dias na Amazônia, e o panorama geral no guia da Amazônia.
Perguntas frequentes
O que é focagem de jacaré?
É um passeio noturno de barco em que o guia usa uma lanterna para localizar o brilho dos olhos dos jacarés na margem. Quando possível, ele captura um filhote, explica sobre a espécie e devolve o animal à água.
Focagem de jacaré é perigosa?
O manuseio é feito pelo guia, com filhote e por poucos minutos. Os participantes ficam no barco. O risco para o visitante é baixo, desde que as orientações sejam seguidas.
Quantas espécies de jacaré existem na Amazônia?
Quatro: jacaré-açu, jacaretinga, jacaré-paguá e jacaré-coroa. As duas últimas são de pequeno porte, em torno de 1,5 metro, e vivem mais em igarapés e riachos no interior da mata.
Como funciona a pesca de piranha?
Vara de bambu, linha, anzol e pedaço de frango como isca. Você bate a vara na água para chamar o peixe e levanta rápido quando sentir o puxão. A piranha costuma levar a isca sem ser fisgada.
A piranha pescada é solta?
Nos passeios que eu fiz, sim. O grupo vê o peixe de perto e ele volta para a água.
Dá para nadar onde tem piranha?
Você nada só nas áreas liberadas pelos guias, e essa liberação muda ao longo do ano. Na seca, algumas áreas ficam interditadas pela concentração de peixes.
O vlog completo da viagem
Antes de fechar a sua viagem
Passeios e pacotes na Amazônia: eu fiz as minhas duas viagens com a Iguana Tour, agência de Manaus que opera os pacotes de selva com guias locais. Fale com eles no Instagram da Iguana Tour e use o cupom ANDARILHAS na hora de fechar.