O meu banheiro tinha mais de dez pererecas. Não é força de expressão, eu contei, e elas simplesmente moravam ali comigo.
Foi assim que eu entendi o que é um hotel de selva na Amazônia. Você não está num hotel que fica perto da floresta, você está dentro dela, e a floresta não combinou com ninguém que ia sair do quarto. Já fui duas vezes, uma em junho com o rio cheio e outra em novembro na seca, dormi em quarto compartilhado e em cabana privativa, e neste post eu conto exatamente como funciona, do transporte até o chuveiro, para você não chegar lá esperando uma coisa e encontrar outra.
Eu conheci a região a convite da Iguana Tour, e os passeios que eu indico aqui você contrata por conta.
O que é um hotel de selva na Amazônia
É uma pousada construída dentro da floresta, geralmente às margens de um rio ou de um lago, com acesso só por barco. Ela funciona em regime de pacote: hospedagem, todas as refeições, guia e passeios entram no mesmo valor, e você não escolhe o que fazer num cardápio, segue a programação do grupo.
Isso muda tudo em relação a um hotel comum. Não tem recepção 24 horas, não tem serviço de quarto, não tem o que fazer no fim da tarde além do que está programado. E é exatamente esse o ponto.
Como se chega: o dia inteiro de transporte
Essa é a parte que ninguém conta direito. Da minha pousada até Manaus foram cerca de três horas, mas em quatro transportes diferentes: uma van, um barco, uma kombi e outro barco.
Parece cansativo escrito assim, e eu achei que seria. Não foi. Como você troca de veículo o tempo todo, o tempo passa rápido e cada trecho é curto. O trajeto em si já é paisagem.
Antes de subir o rio eu dormi uma noite em Manaus, no Local Hostel, que fica no Centro a poucos metros do Teatro Amazonas. Como a saída para a selva é de manhã, essa noite na cidade resolve a logística de quem chega de avião. Eles têm cupom ANDARILHAS para leitoras daqui.
A dica que vale por todo o post: vá de mochila
Eu levei mala de rodinha na minha segunda viagem e me arrependi na hora. Os hotéis de selva têm escadas, passarelas de madeira e trechos de barranco, e mala com rodinha não sobe escada, você carrega no braço. Mochila resolve.
Falo disso em detalhe no post sobre o que levar para a Amazônia.
Onde eu me hospedei: Juma Lake Inn

Nas duas viagens eu fiquei na Juma Lake Inn, uma pousada flutuante na região do Rio Juma. Parte da estrutura literalmente boia, o que significa que ela sobe e desce junto com o rio ao longo do ano.
Isso gera uma cena que me marcou. Na viagem de novembro existia uma escada comprida entre o atracadouro e os quartos. Em junho, aquela escada não existia, porque tudo ali era água. É o mesmo lugar, com dois cenários completamente diferentes dependendo do mês, e eu explico esse ponto no post sobre a melhor época para ir à Amazônia.
Quarto compartilhado: o mais barato
No vlog eu estou no quarto compartilhado, que é a opção mais em conta. É um alojamento misto, homens e mulheres, com várias camas espalhadas pelo mesmo espaço, mosquiteiro e um varalzinho para pendurar roupa, porque nada seca sozinho na umidade amazônica.
Os quartos têm proteção contra bicho e a estrutura é simples. Banheiro compartilhado, fora do quarto.
Cabana privativa: tem duas categorias, e a diferença importa
Na outra viagem eu fiquei em cabana privativa. E aqui vai uma informação que eu nunca vi escrita em lugar nenhum: existem dois padrões de cabana, e a diferença entre elas não é só conforto, é quantidade de bicho dentro do quarto.
A cabana mais simples tem um vão maior entre as tábuas de madeira. Bicho entra muito mais. A cabana mais estruturada tem a madeira mais fechada, e entra bem menos.
Eu fiquei na mais estruturada. Mesmo assim, o meu banheiro tinha mais de dez pererecas. Não é sujeira nem falta de manutenção, é floresta. Se você já chegar sabendo disso, vira anedota. Se chegar sem saber, vira susto.
O banho é de água do rio, e ela é escura
O chuveiro puxa água direto do rio. Ou seja, o seu banho sai marrom escuro. Não é água suja, é a cor natural da água da região, mas o impacto visual na primeira vez é real.
A água é gelada. Eu achei tranquilo, porque o calor e a umidade são tão fortes que o banho frio vira alívio. Cheguei a pensar em não lavar o cabelo e acabei lavando, de tão bem que foi.
A comida é um dos pontos altos

Comida regional, servida em salão coletivo, com mesas comunitárias dentro e fora. Bebedouro liberado para encher garrafinha o tempo todo, o que é essencial no calor de lá.
Um jantar que eu comi tinha abóbora, creme de pirarucu e frango. No café da manhã tinha fruta, pão, bolo, ovo, salsicha, linguiça e suco de caju e de cupuaçu.
Vegetariano e vegano têm opção
Isso me surpreendeu. Você preenche um formulário informando se é vegetariano ou vegano, e a cozinha prepara separado. Na minha viagem tinha proteína de soja como substituta.
Então dá para fazer hotel de selva sendo vegetariana sem passar fome comendo só arroz com feijão, que costuma ser a realidade em destino de natureza no Brasil.
O que está incluso e o que se paga à parte
O pacote cobre hospedagem, café da manhã, almoço, jantar, guia e todos os passeios da programação.
Bebida alcoólica e refrigerante ficam de fora. Funciona assim: tem uma listinha onde você anota o seu nome e o que consumiu, e acerta na saída. Cerveja, suco, caipirinha e água em garrafa entram nessa conta.
Não tem sinal de celular nem wi-fi
Zero. Não tinha sinal de celular, não tinha wi-fi, não tinha internet de nenhum tipo.
Isso muda a viagem de duas formas. A primeira é prática: avise a sua família antes de embarcar que você vai ficar incomunicável por alguns dias, resolva o que precisa ser resolvido e baixe o que quiser ouvir. A segunda é o motivo pelo qual muita gente vai: você passa três dias sem olhar o celular e lembra de como era.
Como são os dias na pousada
A programação é puxada e começa cedo. Num pacote de três dias e duas noites, que foi o que eu fiz, cabe passeio de barco para ver animais, pesca de piranha, banho em praia de rio, focagem de jacaré à noite, nascer do sol no rio, trilha de três horas na floresta, visita a uma casa de ribeirinho e uma noite de acampamento dormindo em rede na mata.
Tem dia com atividade às cinco da manhã e outra depois do jantar. Não é uma viagem de descanso.
Eu detalho a noite de rede no post sobre dormir na selva em rede, e o panorama completo de como planejar a viagem está no guia da Amazônia.
Para quem é e para quem não é
É para você se: quer natureza de verdade, topa dormir simples, não se incomoda com bicho e quer voltar com história para contar.
Não é para você se: você precisa de ar-condicionado garantido, wi-fi e banheiro impecável para relaxar. Nesse caso, existem lodges de padrão mais alto na região, e vale procurar por eles em vez de se frustrar num hotel de selva simples.
Eu voltei uma segunda vez. Isso responde bem o quanto eu gostei.
Perguntas frequentes
Hotel de selva na Amazônia tem ar-condicionado?
Depende da categoria do quarto. Nas opções mais simples e no quarto compartilhado você conta com ventilador e mosquiteiro. Algumas cabanas privativas oferecem ar-condicionado. Confirme a categoria exata no momento da reserva, porque isso varia dentro da mesma pousada.
Tem bicho dentro do quarto?
Tem. Inseto, perereca, lagartixa. Os quartos têm proteção e mosquiteiro, mas você está dentro da floresta e alguma coisa sempre entra. Nas cabanas com vão maior entre as tábuas entra mais.
O banho é de água do rio mesmo?
Sim, e ela sai escura por causa da coloração natural da água da região. Também é gelada, o que acaba sendo bom pelo calor.
Tem internet no hotel de selva?
Na pousada onde eu fiquei não tinha sinal de celular, wi-fi nem internet. Planeje a viagem como se fosse ficar incomunicável.
Quantos dias vale a pena ficar?
Três dias e duas noites dão conta de todas as atividades principais. Eu recomendo esse formato, porque a programação já é intensa e você não fica com a sensação de ter deixado nada de fora.
Vegetariano consegue comer bem?
Sim. Você informa a restrição antes e a cozinha prepara um prato separado. Na minha viagem a opção proteica era soja.
O vlog completo da viagem
Antes de fechar a sua viagem
Passeios e pacotes na Amazônia: eu fiz as duas viagens com a Iguana Tour, agência de Manaus que opera os pacotes de selva. Fale com eles no Instagram da Iguana Tour e use o cupom ANDARILHAS na hora de fechar.