Eu caminhei três horas por um chão que, metade do ano, é fundo de rio.

Essa é a coisa mais estranha da trilha na Amazônia na época da seca: o guia aponta a marca da água nas árvores, bem acima da sua cabeça, e você entende que está andando dentro de um lugar que passa meses submerso. Nada na paisagem entrega isso, só a marca no tronco.

Neste post eu conto como é a trilha de verdade: o nível de dificuldade, o que aparece no caminho e o que vale saber antes de calçar o tênis.

Eu conheci a região a convite da Iguana Tour, e os passeios que eu indico aqui você contrata por conta.

Resposta direta: a trilha é difícil?

Não é difícil por esforço, é cansativa por ambiente. O terreno é praticamente plano, sem subida puxada, e o ritmo é lento porque o guia para o tempo todo para mostrar coisa.

O que cansa é o calor e a umidade. Você sua desde o primeiro minuto, a roupa não seca e a sensação térmica é alta mesmo debaixo da copa das árvores. Três horas ali cansam mais que três horas de trilha em serra no Sudeste.

Se você caminha razoavelmente bem, dá conta.

O que o guia mostra no caminho

A trilha na Amazônia não é sobre vista. Não tem mirante, não tem cachoeira no fim. Ela é sobre o que está a um metro de você e você não enxergaria sozinha.

Água que sai da planta

O guia mostrou como conseguir água na mata, esmagando o material vegetal certo até sair líquido. Ele avisou que o ideal é decantar antes de beber, porque sai um pouco suja.

É o tipo de coisa que você assiste em programa de sobrevivência e acha exagero até ver funcionando na sua frente.

Sapopema: a árvore que serve de telefone

Cipó grande na trilha dentro da floresta amazônica

As sapopemas são aquelas raízes enormes e achatadas que saem do tronco como paredes. Além de sustentar a árvore em solo raso, elas são usadas como instrumento de comunicação na mata: você bate na raiz e o som viaja longe.

Eu bati. Funciona, e é alto mesmo.

Tapuru, a larva que tem gosto de coco

Aqui o guia abriu um coco de babaçu caído no chão e tirou de dentro uma larva branca e gorda. É o tapuru, também conhecido como gongo, bicho-do-coco, coró ou morotó dependendo da região.

Essa eu fui conferir depois, e o guia estava certo. O tapuru é a larva do besouro Pachymerus nucleorum. A fêmea põe o ovo na superfície do coco caído, a larva nasce, entra no fruto e se desenvolve ali dentro comendo a semente. Por comer só polpa de coco, ela realmente tem sabor de coco. E sim, se ninguém tirar de lá, ela vira besouro.

É comida tradicional em várias regiões do Brasil, geralmente frita, em farofa ou misturada no arroz, e entra também no treinamento de sobrevivência na selva pelo alto teor de proteína.

Na minha trilha, algumas pessoas do grupo toparam comer a larva viva. Eu não comi. As reações estão no vlog e valem o clique.

As formigas de cheiro forte

O guia mexeu no formigueiro, deixou as formigas subirem na mão dele e esfregou. Sai um cheiro adocicado e forte, que fica na pele.

Ele explicou que isso acontece porque a formiga não tem sistema nervoso. Essa parte está errada, e eu prefiro te dar a informação certa: formigas têm sistema nervoso, sim.

O que realmente acontece é que muitas formigas produzem e liberam ácido fórmico como defesa quando se sentem ameaçadas. É esse composto que dá o cheiro forte e permanente na pele. Guias amazônicos usam a técnica justamente para mascarar o cheiro humano dentro da mata, o que ajuda tanto contra insetos quanto na aproximação de outros animais.

Não é mágica nem folclore, é química. Só não é pelo motivo que contaram para mim.

Animais: ajuste a expectativa

Você vai ver macaco, bicho-preguiça e muitos pássaros, principalmente nos deslocamentos de barco. E você não vai conseguir fotografar quase nada disso com o celular, porque está tudo longe, alto e em movimento.

Se registrar importa para você, leve binóculo ou câmera com zoom. A lista do que vale levar está em o que levar para a Amazônia.

Quando a trilha acontece e quando não acontece

A trilha longa é atividade de seca. Com o rio alto, boa parte do terreno está debaixo da água e o passeio equivalente passa a ser de canoa, por dentro da mata alagada.

Ou seja: se fazer trilha é prioridade para você, a época importa. Comparo as duas no post sobre a melhor época para ir à Amazônia, o dia a dia está em roteiro de 3 dias na Amazônia, e o panorama geral no guia da Amazônia.

Perguntas frequentes

Quanto tempo dura a trilha na selva amazônica?
Nos pacotes de hotel de selva, a trilha principal costuma durar cerca de três horas, com paradas frequentes para o guia explicar o que aparece no caminho.

A trilha é pesada?
O terreno é praticamente plano e o ritmo é lento. O que pesa é o calor e a umidade, não o esforço físico.

Preciso de bota para a trilha?
Precisa de calçado fechado e já amaciado. Algumas pousadas emprestam bota de borracha, então pergunte antes de comprar uma só para a viagem.

O que é o tapuru?
É a larva do besouro Pachymerus nucleorum, que se desenvolve dentro do coco de babaçu e tem sabor de coco por se alimentar da polpa. É comida tradicional em várias regiões do Brasil e também é conhecida como gongo, coró e bicho-do-coco.

Por que as formigas têm cheiro forte quando esfregadas?
Porque liberam ácido fórmico como mecanismo de defesa. Guias usam o cheiro para mascarar o odor humano na mata. Não tem nada a ver com ausência de sistema nervoso, que as formigas possuem.

Dá para fazer trilha na época da cheia?
A trilha longa fica limitada, porque muito do terreno está submerso. Nessa época, o passeio equivalente acontece de canoa, dentro da floresta alagada.

O vlog completo da viagem

Antes de fechar a sua viagem

Passeios e pacotes na Amazônia: eu fiz as minhas duas viagens com a Iguana Tour, agência de Manaus que opera os pacotes de selva com guias locais. Fale com eles no Instagram da Iguana Tour e use o cupom ANDARILHAS na hora de fechar.

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