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Eu já voltei a Buenos Aires vezes suficientes para ter opinião formada sobre onde vale sentar e onde não vale.

Esse post é a lista dos lugares onde eu comi de verdade, com o que eu pediria de novo, o que eu não pediria, e o que ninguém te avisa antes. Não é ranking de guia: é o que eu diria para uma amiga que me perguntasse no WhatsApp.

Um aviso: eu não como carne vermelha. Isso pode parecer uma limitação num post sobre Buenos Aires, mas acabou virando vantagem — eu testei o lado vegetariano de parrilla nenhuma outra pessoa testa, e quem me acompanhou deu o veredito sobre as carnes. Vou deixar claro em cada caso quem gostou do quê.

Café da manhã e confeitarias históricas

Confitería La Ideal. Aberta em 1912, e é o lugar mais bonito dessa lista com folga. Salão enorme, colunas, vitrais, teto trabalhado. A gente chegou às 10h30 e não pegou fila.

O que amamos: o croissant de presunto e queijo, que é o maior que eu já vi na vida — do tamanho de três mãos, bem folhado, e salgado de verdade, sem aquele puxão de doce que estraga tantos croissants. E o chocolate quente belga, que é super cremoso, quase um chocolate derretido na xícara. Os dois juntos foram o melhor pedido da mesa. O alfajor de doce de leite e o cookie de frutas vermelhas também foram aprovados.

O que não amamos, e eu prefiro ser honesta: o macarron estava doce demais, e o cheesecake ficou farelento e com gosto forte de limão.

Foi a refeição mais cara da viagem em proporção, mas pela experiência valeu. Vá pelo lugar tanto quanto pela comida.

Biblos Coffee. Um café de bairro, sem pompa, e foi ali que eu comi a melhor empanada da viagem inteira — melhor que as do Caminito, melhor que as do mercado. Tem medialunas, suco de laranja espremido na hora, licuados e um doce chamado vigilante, que é queijo com doce e é bem argentino.

Se você está caçando padaria histórica, vá à Ideal. Se está caçando o café da manhã que você repetiria todo dia, vá ao Biblos.

Uma nota sobre medialunas: é o croissant argentino, mas doce, com uma calda por cima. Não é igual ao croissant francês, e quem espera a mesma coisa se decepciona. Peça sabendo.

As parrillas

Don Julio. É a mais famosa do mundo, tem estrela Michelin e uma parede inteira de prêmios que você vê a caminho do banheiro. Também é a mais difícil de entrar.

Duas formas: reservar com muitos meses de antecedência, ou chegar na fila entre 11h e meio-dia. E a fila virou parte da lenda, porque enquanto você espera eles servem espumante Chandon, empanada e sopa de cenoura de cortesia. Foi isso que fez o lugar viralizar.

A cozinha é aberta e dá para ver a brasa. Os cortes são grandes — os de 500 g são para duas pessoas. Acompanhamentos e entradas se pedem à parte, então a conta cresce mais do que você imagina olhando só o preço da carne. No fim, chegam chocolates recheados com doce de leite de cortesia.

O veredito da carne não é meu: quem comeu disse que estava entre as três melhores da vida dele. Então está aprovado.

E um detalhe que eu não esperava: a parrilla tem uma seção só vegetariana, separada. Deu para comer bem sem carne, o que numa casa desse porte não é óbvio.

Lo de Jesús. Essa é a minha recomendação de verdade, e a que eu repeti em viagens diferentes.

É especializada em carnes e vinhos, mas tem massa ótima — eu pedi ravioli de espinafre e ravioli de burrata em visitas distintas e os dois estavam excelentes. Quem come carne foi de fraldinha e de camarões patagônicos ao alho, ambos aprovados.

O ambiente é o diferencial: você pode sentar numa área ao ar livre com plantas, luzinhas e aquecedor, que no inverno fica um charme.

E a sobremesa: o garçom insistiu no flan de doce de leite e ele tinha razão — é o melhor da casa. Mas a panqueca de doce de leite também não decepciona. A verdade é que dá para pedir as duas.

Se você quiser uma parrilla excelente sem a produção toda do Don Julio, é aqui.

Revire Brasas Bravas. Fica perto do Obelisco, o que resolve o jantar de quem passou o dia no centro. Chegam três molhinhos de entrada — alho, cenoura e beterraba — que são muito bons. Ojo de bife, legumes na brasa e massa, tudo aprovado. A sobremesa de sorvete de mascarpone com merengue, pêssego e frutas vermelhas foi das melhores da viagem.

Gran Paraíso. É a melhor parrilla do Caminito, e é onde eu almoçaria se o seu dia for em La Boca — porque comer bem naquela região exige saber onde ir.

Os restaurantes que não são parrilla

República del Fuego. Meu favorito da cidade, sem hesitar. Tem indicação Bib Gourmand do guia Michelin, que é a categoria de bom custo-benefício — não é estrelado, e é justamente por isso que a conta não assusta.

Peça sem pensar duas vezes: a abóbora na brasa com mel e iogurte — eu pedi em duas viagens diferentes e ela continua absurda — e a salada com avocado e laranja, que é diferentona e funciona. A massa artesanal de couve-flor e alho-poró é a melhor opção sem carne que eu comi na cidade. Para quem come carne, a entranha, que é a nossa fraldinha, dá para dois.

De entrada, a stracciatella com edamame, ervilha e menta, ou o homus com beterraba, que chega numa cor linda. De sobremesa, panqueca de doce de leite ou pera com creme de mascarpone.

Chega ainda uma cortesia de purê de cenoura com pão frito. É o tipo de casa que acerta do começo ao fim.

Cauce. Em Puerto Madero, com mesas de frente para a água e indicação do guia Michelin. É o lugar do jantar bonito, do primeiro ou do último dia.

A entrada que mais me surpreendeu foi a empanada de pacu, feita com o peixe do rio Paraná — não é algo que você encontra em qualquer lugar. A burrata com presunto serrano arrancou de quem estava comigo a frase “melhor presunto que eu já comi”.

De principal, a milanesa com tagliatelle e o nhoque. E a sobremesa que eu mando você pedir: o vulcão de doce de leite com sorvete de banana. Tem também um brownie, mas peça o vulcão.

Atenção a dois itens na conta: o cobierto, que é o couvert do pãozinho, é cobrado por pessoa, e a gorjeta de 10% é adicionada por escolha sua.

La Parolaccia. Italiano em Recoleta, ótimo para o dia de museus, porque encaixa na região. Tortelone recheado de gruyère, sorrentino de presunto e queijo, vitela milanesa com fettuccine. Nada revolucionário, tudo bem executado, e um almoço tranquilo no meio de um dia cheio vale mais do que parece.

Vivanco, em Tigre. Se você fizer o bate-volta, é ali que eu almoçaria. Tem menu executivo de inverno com principal, sobremesa e bebida — e a bebida pode ser uma taça de vinho, servida generosamente. Frango com mil-folhas de batata, risoto de aspargos com pera, crème brûlée de doce de leite. E, no nosso dia, música brasileira ao vivo, o que foi engraçado e ninguém pediu.

Comida de rua, empanadas e mercado

Mercado de San Telmo. Um mercado coberto que virou centro gastronômico, com brechó, restaurante fechado, comida internacional e muito movimento. Se chover, todo mundo tem a mesma ideia de correr para lá, então prepare-se para lotação.

Para comer, eu indico o El Hornero, que assa as empanadas na hora. Umita, que é de milho, e roquefort com queijo foram as minhas favoritas. Costumam ter combo de duas empanadas com uma taça de vinho.

E tem a janela de vinho: uma portinha onde você compra taça de vinho por preço de nada. É o tipo de coisa que faz o dia.

Empanadas no Caminito. Fomos ao El Rinconcito, e a empanada estava boa, mas não excepcional — a massa parecia reaquecida, sem crocância. Ao lado tem uma casa de fugazzeta, a pizza carregada de queijo e cebola, e essa sim estava ótima. Se você só puder comer uma coisa em La Boca, escolha a fugazzeta.

O rapaz do balcão nos disse que eles são os criadores da fugazzeta, e a casa parece reivindicar isso abertamente. Fica o registro, mas com ressalva: a autoria do prato é bastante disputada em Buenos Aires, e mais de uma pizzaria histórica se diz inventora. Não dá para afirmar que a versão deles é a verdadeira.

Sabores Express, na Calle Florida. Empanada de rua, barata, para segurar a fome no meio do dia de caminhada. Funciona.

Pizzería Guerrín, na Avenida Corrientes. Estava na minha lista e eu não consegui: a fila era tão grande que eu confundi com fila de teatro. Fica a dica de ir fora do horário de pico.

Doce de leite, alfajores e sorvete

Isso aqui merece seção própria, porque em Buenos Aires não é sobremesa, é infraestrutura.

Alfajores. O Cachafaz é o mais consagrado e tem loja na esquina mais fotografada do Caminito, com caixas em promoção e combos. Nas bancas você encontra os industrializados baratos, e o de Milka é sempre elogiado.

Loja de doce de leite no Mercado de San Telmo. Tem degustação — você prova várias marcas antes de escolher. Tem versão sem açúcar, vegana e com passas ao rum. O que mais me agradou foi o da própria casa, que é premiado.

Sorvete. Se você fizer o bate-volta a Colonia, procure sorveteria: o de doce de leite com alfajor que eu tomei lá é dos melhores que já provei.

Rapanui. Chocolateria e sorveteria aberta até tarde. A gente comprou quase à uma da manhã, por impulso, e não se arrependeu.

Para quem não come carne

Buenos Aires tem fama de ser terra arrasada para vegetarianos e isso não é mais verdade.

O República del Fuego e o Lo de Jesús resolvem sozinhos. O Don Julio tem seção vegetariana na parrilla. Praticamente toda parrilla tem massa boa no cardápio — sim, pedir massa em churrascaria argentina é considerado quase um crime nacional, mas ninguém te expulsa. E as empanadas de queijo, umita, roquefort e vegetais estão em todo lugar.

O que falta mesmo é opção vegana, que é bem mais escassa.

Como eu montaria os jantares de cinco noites

Noite 1: Cauce, em Puerto Madero, para começar bonito.
Noite 2: o jantar do show de tango, que já resolve a refeição.
Noite 3: Lo de Jesús.
Noite 4: República del Fuego.
Noite 5: Don Julio, com reserva feita há meses.

Almoços mais leves: La Parolaccia no dia dos museus, Gran Paraíso no dia do Caminito, e o Mercado de San Telmo no dia de San Telmo.

Antes de embarcar, o que eu não dispenso

Seguro viagem. Eu uso a Coris — é o tipo de coisa que você espera não precisar e agradece por ter. Com o cupom ANDARILHAS você tem desconto: contrate aqui.

Internet. Se a sua viagem passa por mais de um país ou você quer desembarcar já conectada, o eSIM da Holafly resolve. Cupom ANDARILHAS: veja os planos. Ficando só na Argentina, o chip da agência já cobre.

Cartões. Eu uso Nomad e Wise. No Nomad, o cupom ANDARILHAS20 dá até 20 dólares de cashback ao abrir a conta. No Wise, pelo meu link você tem transferência de até R$ 3.000 sem tarifas.

Passeios. Transfers, city tour, bate-voltas e shows de tango eu fecho com a My Little Buenos Aires, cupom ANDARILHAS. Eles também conseguem reservar restaurante, o que ajuda nos disputados.

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Buenos Aires é uma cidade onde é difícil comer mal e fácil comer muito. Reserve o Don Julio com antecedência, guarde uma noite para o República del Fuego e não volte para casa sem ter comido doce de leite todo santo dia.

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