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Buenos Aires tem uma obsessão por bar escondido que eu nunca vi em nenhuma outra cidade.

Não é um ou outro. São dezenas. Bares atrás de portas que parecem depósito, dentro de floricultura, atrás de uma geladeira, com fachada de sex shop. A cidade transformou o formato speakeasy — herdado da Lei Seca americana — em uma competição de criatividade cenográfica, e o resultado é que sair pra beber lá virou passeio, não só bebida.

Eu voltei a Buenos Aires algumas vezes e fui juntando esses lugares. Já são sete. Esse post é o guia de cada um: o que tem dentro, como se entra, se precisa reserva e qual eu escolheria se você só tivesse uma noite.

Antes de tudo: como funcionam os bares secretos de Buenos Aires

Três coisas que valem para praticamente todos e que ninguém avisa:

Reserva não é frescura, é o mecanismo. Vários deles só liberam o endereço depois que você reserva. Alguns mandam uma senha. Sem isso você literalmente não sabe onde é o lugar — não adianta procurar no mapa.

A porta não parece uma porta. É esse o ponto. Você vai passar reto pelo menos uma vez. Confira o número da rua e olhe para o que parece errado: floricultura funcionando à noite, sex shop de neon, geladeira industrial.

A maioria está em Palermo. Isso resolve muita coisa, porque dá para fazer dois ou três na mesma noite a pé. A grande exceção é a Florería Atlántico, que fica em Retiro.

Agora, um por um.

1. Uptown — o metrô de Nova York dentro de Palermo

Esse é o meu favorito, e eu voltei nele na última viagem só para repetir a experiência.

O Uptown é uma réplica de uma estação de metrô nova-iorquina, feita com um nível de detalhe que beira o absurdo. Você entra por um painel de azulejos brancos com a palavra SUBWAY, passa por catracas de metrô de verdade e chega a um vagão completo — bancos laranja, alças de mão penduradas, portas automáticas com a placa “Uptown & The Bronx”. O cardápio é um painel de informações de estação, com horários de trem.

O vagão não é o bar inteiro. Ele é a passagem: você atravessa e chega na parte de trás, onde a coisa acontece.

Prático: abre às 20h e forma fila mesmo para quem chega no horário. Reserva só existe para jantar — quem vai só beber fica de pé ou nas mesas altas. Fica em Palermo.

2. Florería Atlántico — o mais famoso de todos

Se você só ouviu falar de um bar escondido de Buenos Aires, foi desse. A Florería Atlántico é presença constante na lista dos melhores bares do mundo e é comandada por Tato Giovannoni, o bartender mais reverenciado da cidade.

Por fora, é uma floricultura de verdade, na rua Arroyo, em Retiro, perto da Plaza San Martín. Funcionando, vendendo flores. No fundo da loja há uma porta, e atrás dela uma escada que desce para um subsolo com clima de navio: paredes com monstros marinhos e escamas, balcão comprido, poucas mesas.

A temática é a imigração europeia que atravessou o Atlântico — daí o nome — e ela aparece tanto nos drinks quanto na comida.

História pessoal: eu tentei conhecer esse bar numa viagem anterior e ele estava fechado para reforma. Fiquei com aquela sensação de viagem incompleta e voltei anos depois só para riscar da lista. Valeu a espera.

Prático: as mesas são disputadíssimas, então reserve com antecedência. Sem reserva, dá para tentar o balcão.

3. The Hole — beber dentro de uma cela de Alcatraz

Esse é o mais teatral do grupo.

O The Hole recria uma penitenciária federal americana, inspirada em Alcatraz. A fachada é disfarçada de banco — “Federal Bank” na porta —, e lá dentro há corredores com grades, celas de verdade com bancos, e uma parede de medição de altura onde você tira sua foto de fichamento segurando a plaquinha com número. O cardápio vem encadernado como documento da U.S. Federal Penitentiary.

A ambientação é, sem exagero, surreal. Você atravessa uma portinha sem graça nenhuma e cai num mundo paralelo.

Prático: para beber numa das celas é obrigatório reservar — elas são poucas e vão rápido. A reserva se faz pelo site.

4. El Purgatorio — você entra por uma geladeira e alguém lê seu tarot

Esse é o mais maluco de todos, e o que mais rende história pra contar depois.

A entrada é uma geladeira. Você abre a porta de uma geladeira industrial e sai do outro lado, num ambiente que se propõe a ser uma sociedade secreta. Na chegada, alguém lê tarot para você.

E o cardápio segue a ideia: os drinks são cartas de tarot. Eu pedi o que saiu na minha leitura, “La Muerte”, porque a interpretação da carta foi boa demais para eu ignorar. Também provamos o “Imperatriz”. Os dois vêm com apresentação cenográfica — caveira, cobra, fumaça.

Prático: precisa reservar e receber uma senha. O endereço só chega depois da reserva confirmada, e o lugar não aparece no Google. Esse é literalmente secreto.

5. Frank’s — fachada de sex shop com patinhos de borracha

O Frank’s já figurou entre os melhores bares do mundo e é um dos mais consagrados da cidade.

A fachada é um sex shop de neon, com patinhos de borracha na vitrine, e o efeito de estar parada na calçada esperando entrar num sex shop é exatamente a piada que eles queriam fazer. A proposta é reconstituir os bares clandestinos da Lei Seca americana, e o clima interno acompanha.

Prático: precisa reservar e receber uma senha para entrar. Fica em Palermo.

6. J.W. Bradley — o do vagão de trem na entrada

Se o Uptown é o metrô, o J.W. Bradley é o trem.

A entrada tem um vagão, e ao chegar você recebe uma explicação sobre a temática e a história por trás do nome do bar antes de entrar — o que já muda o tom da noite. Por dentro, luzes baixas e um clima bem confortável.

Foi o bar onde a gente mais dançou, porque a DJ tocava só pop. E a sobremesa de oreo é ótima.

Prático: também em Palermo, dá para chegar a pé se você estiver fazendo a rodada de bares.

7. Cochinchina — o vizinho de porta do Purgatorio

O Cochinchina fica ao lado do El Purgatorio, o que faz dele a combinação mais óbvia da lista: você faz os dois na mesma noite sem andar um quarteirão.

Também é reconhecido entre os melhores bares do mundo, e a temática é a cultura franco-vietnamita — presente tanto nos drinks quanto na comida. Por dentro é bonito de um jeito diferente dos outros: menos cenografia, mais elegância.

Se você tem só uma noite, qual escolher?

Depende do que você quer sentir:

Se você tem duas noites, a combinação que eu faria é Purgatorio e Cochinchina numa (são vizinhos) e Uptown na outra.

Como organizar a noite

Reserve com antecedência os que exigem reserva — Purgatorio, Frank’s e as celas do The Hole. Faça isso antes de embarcar, não no dia.

Como quase tudo está em Palermo, dá para encadear dois ou três a pé. Só lembre que a Florería Atlántico fica em Retiro, então ela pede uma noite própria ou um deslocamento de carro.

E vale o aviso óbvio: você vai beber. Não dirija, e se estiver hospedada longe de Palermo, deixe o transporte de volta resolvido.

Reservando o resto da viagem

Os bares você reserva direto com cada um — não existe pacote de bar secreto, e desconfie de quem vender isso.

Agora, para o resto da viagem — transfers, city tour, bate-voltas e shows de tango — eu fechei tudo com a My Little Buenos Aires, e usando o cupom ANDARILHAS você tem desconto. Quem fecha passeio com eles ainda recebe adaptador de tomada e chip de celular, o que resolve dois perrengues clássicos de quem chega na Argentina.

Perguntas frequentes

Preciso falar espanhol?
Ajuda, mas não é impeditivo. Nos bares mais conhecidos há gente que fala inglês, e brasileiro é público frequente.

Dá para ir sozinha?
Dá, especialmente nos que têm balcão, como a Florería. Os que funcionam por reserva de mesa fazem mais sentido em dupla ou grupo.

Tem código de vestimenta?
Nada rígido, mas as pessoas se arrumam. Evite ir de tênis e mochila direto do passeio do dia.

Que horas abrem?
A maioria a partir das 19h ou 20h, e a noite portenha começa tarde. Antes das 21h você vai encontrar tudo vazio — o que, dependendo do que você procura, pode ser ótimo.


Buenos Aires é uma cidade que se leva muito a sério de dia — arquitetura, museus, história — e se permite ser completamente ridícula à noite. Os bares secretos são a prova disso, e é por eles que eu continuo voltando.

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